Marcelo Soares publicou uma reportagem no site da revista piauí sobre as capas de revista publicadas internacionalmente sobre o governo Trump. Quanto piores suas ações, observa o trabalho, melhores as capas - especialmente as desenhadas por artistas como Barry Blitt, da The New Yorker. Blitt, aliás, foi um dos entrevistados.
A reportagem funciona como uma espécie de continuação da análise, publicada também pelo site da piauí, sobre os apoios declarados (e deixados de declarar) pelos jornais norte-americanos às candidaturas de Trump e de Kamala Harris na eleição de 2024.
Um trecho:
"Trump é uma caricatura de si mesmo, seu exterior é uma representação perfeita do seu personagem", diz Barry Blitt sobre o porquê de o presidente americano ser uma figura tão irresistível de se desenhar. "Não sei o que eu teria feito se a Kamala Harris tivesse sido eleita, porque é muito mais difícil desenhar uma pessoa de aparência normal."
Blitt e o cartunista Pat Bagley, cujas charges são distribuídas a mais de quatrocentos jornais nos Estados Unidos e mundo afora, listam os aspectos físicos mais salientes de Trump: o comb-over (topete penteado para disfarçar a calvície), o bronzeado laranja falso, as poses exageradas e o "uniforme" nas cores da bandeira dos Estados Unidos, com uma longa gravata vermelha. Sabendo que um desenho pode inadvertidamente tornar simpático um personagem desagradável, Bagley usa elementos da linguagem da charge para embutir críticas. "Passei a pôr os balões dele saindo da bunda, porque é assim mesmo que ele fala."
O personagem é tão inconfundível que às vezes aparece nas capas por meio de metonímias visuais. Ele pode ser representado pelo boné vermelho do MAGA, por sua gravata, seu topete, suas caretas com a boca ou sua mão pequena (quando era editor da revista britânica Spy, nos anos 1980, o então futuro editor da Vanity Fair Graydon Carter apelidou Trump de "short-fingered vulgarian", ou homem vulgar de dedos curtos). Até com o rosto coberto por um capuz da KKK, Trump é reconhecível. A Economist fez tantas capas recentes com o presidente americano que acabou desenvolvendo uma enorme criatividade nas metonímias, ora usando a gravata, ora o boné, ora o topete.
