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A era da pós-vergonha

Marcelo Soares

Em abril de 2025, o Instituto Vladimir Herzog me convidou para dar uma palestra sobre o novo ambiente digital e suas implicações. Escrevi essa palestra, propondo um conceito de "era da pós-vergonha". A era da pós-verdade, de que se falava tanto até recentemente, venceu com a segunda vitória de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.

Desde então, discursos que não circulavam por serem vergonhosos, expressando preconceitos e até coisa pior, foram se tornando não apenas normalizados como até esperados por parte de pessoas poderosas. O uso indiscriminado da chamada inteligência artificial gerativa (que apelidei de "geradores de lero-lero" e "máquinas de encher linguística") contribui para essa situação.

Publiquei uma versão daquela palestra na minha newsletter e depois uma versão levemente editada desse texto saiu publicada no Objethos. No final do ano, o Farol Jornalismo me procurou para escrever sobre o que esperar do novo ano, e aprofundei mais o assunto.

Acredito que essa ideia pode ser bastante relevante, então resolvi organizar esta página com recursos a respeito. Estarão aqui textos e vídeos meus pertinentes a isso, além de outras coisas que tenho lido a respeito, que encontrei por conta própria ou indicações de amigos e leitores.

De minha autoria

Reúno aqui tudo o que publiquei a respeito dessa ideia.

Comentários ao texto

Outras leituras

"Blank Space: A Cultural History of the Twenty-First Century" - W.David Marx, 2025

Acompanho o trabalho do autor há uns três anos, desde que li seu ótimo livro "Status and Culture", e este foi talvez o livro que mais esperei em 2025. Valeu a espera. Há um excelente raciocínio que ele faz sobre como o predomínio de uma ideologia hipercomercial, neste nosso século, fez com que a vergonha sumisse do debate público.

"O que vem depois da farsa?" - Hal Foster, 2021

Só descobri a existência deste trabalho depois de já ter escrito dois artigos sobre a pós-vergonha. O ensaísta e crítico de arte traz uma importante provocação, usando referências que eu inclusive citei no artigo original:

"Se a farsa segue à tragédia, o que segue à farsa? Com um dedinho de clareza veio um monte de merda. Como afirmou o filósofo Harry Frankfurt em seu clássico ensaio sobre o tema, o mentiroso mente conscientemente e, assim, mantém uma relação com a verdade, enquanto o falador de merda [bulshitter] não tem a menor preocupação com a veracidade e, assim, a corrompe ainda mais. Uma política da pós-verdade é com certeza um enorme problema, mas uma política da pós-vergonha também é. Em particular, como se posicionam os artistas e os críticos diante desse dilema duplo?"

"Sobre Falar Merda" - Harry Frankfurt, 2004

Li este livrinho curto há mais de 20 anos, quando foi lançado no exterior. Acredito ser particularmente explicativo do que representam o governo Trump e seus imitadores. Foster já resume a ideia logo acima, mas vale a pena ler o original. A edição brasileira está fora de catálogo. O livro se baseia numa palestra do filósofo, que também foi publicada em "The Importance of What We Care About", com outros textos seus.

"Das margens ao centro - a normalização sem vergonha" - Ruth Wodak, 2024

Este artigo me foi indicado por leitores, e trata de como a extrema-direita usa a falta de vergonha de comportamentos inaceitáveis como instrumento de mobilização política. É relativamente curto, está em português e é acessível gratuitamente.

"As paisagens emocionais da extrema-direita massiva" - Alejandro Grimson, 2025

Outra indicação recebida. Cita o artigo anterior, numa discussão sobre como o governo Milei consegue mobilizar massas na Argentina tentando apagar da história grupos importantes como as mães da Plaza de Mayo.