A era da pós-vergonha
Marcelo Soares
Em abril de 2025, o Instituto Vladimir Herzog me convidou para dar uma palestra sobre o novo ambiente digital e suas implicações. Escrevi essa palestra, propondo um conceito de "era da pós-vergonha". A era da pós-verdade, de que se falava tanto até recentemente, venceu com a segunda vitória de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.
Desde então, discursos que não circulavam por serem vergonhosos, expressando preconceitos e até coisa pior, foram se tornando não apenas normalizados como até esperados por parte de pessoas poderosas. O uso indiscriminado da chamada inteligência artificial gerativa (que apelidei de "geradores de lero-lero" e "máquinas de encher linguística") contribui para essa situação.
Publiquei uma versão daquela palestra na minha newsletter e depois uma versão levemente editada desse texto saiu publicada no Objethos. No final do ano, o Farol Jornalismo me procurou para escrever sobre o que esperar do novo ano, e aprofundei mais o assunto.
Acredito que essa ideia pode ser bastante relevante, então resolvi organizar esta página com recursos a respeito. Estarão aqui textos e vídeos meus pertinentes a isso, além de outras coisas que tenho lido a respeito, que encontrei por conta própria ou indicações de amigos e leitores.
De minha autoria
Reúno aqui tudo o que publiquei a respeito dessa ideia.
- "A Era da Pós-Vergonha" - primeira versão do texto, publicada na newsletter Lagom Insights em 16.abr.2025.
- "A Era da Pós-Vergonha" - segunda versão, com leves alterações, publicada pelo Objethos em 17.abr.2025. Republicada pelo Observatório da Imprensa.
- "Máquinas de encher linguística" - Lagom Insights, 17.mai.2025
- "Vídeos por IA são inevitáveis na comunicação política?" - newsletter Lagom Insights, 1º.jul.2025
- "2026: a primeira eleição presidencial da era pós-vergonha" - Farol Jornalismo, 10.dez.2025
- "O primeiro golpe de Estado da era da pós-vergonha" - YouTube, 4.jan.2026
- "Um péssimo presidente - mas que ótimas capas!" - piauí, 20.fev.2026
Comentários ao texto
- Vídeo da advogada Cindia Moraca sobre a polêmica vazia em torno de um comercial das sandálias Havaianas, em 22.dez.2025
- "A pior mensagem de Natal que você vai ler hoje" - Cristina Moreno de Castro, dez.2025
- Artigo da Revista Sociedade Científica, 27.jan.2026
- "O jornalismo no Brasil em 2026: entre o extremismo e a pós-vergonha", de Samuel Lima (UFSC), no Objethos, em 2.mar.2026
- "Soft power no pós-vergonha", de Thiago Borbolla e outros. Judão, 27.mar.2026
Outras leituras
"Blank Space: A Cultural History of the Twenty-First Century" - W.David Marx, 2025
Acompanho o trabalho do autor há uns três anos, desde que li seu ótimo livro "Status and Culture", e este foi talvez o livro que mais esperei em 2025. Valeu a espera. Há um excelente raciocínio que ele faz sobre como o predomínio de uma ideologia hipercomercial, neste nosso século, fez com que a vergonha sumisse do debate público.
"O que vem depois da farsa?" - Hal Foster, 2021
Só descobri a existência deste trabalho depois de já ter escrito dois artigos sobre a pós-vergonha. O ensaísta e crítico de arte traz uma importante provocação, usando referências que eu inclusive citei no artigo original:
"Se a farsa segue à tragédia, o que segue à farsa? Com um dedinho de clareza veio um monte de merda. Como afirmou o filósofo Harry Frankfurt em seu clássico ensaio sobre o tema, o mentiroso mente conscientemente e, assim, mantém uma relação com a verdade, enquanto o falador de merda [bulshitter] não tem a menor preocupação com a veracidade e, assim, a corrompe ainda mais. Uma política da pós-verdade é com certeza um enorme problema, mas uma política da pós-vergonha também é. Em particular, como se posicionam os artistas e os críticos diante desse dilema duplo?"
"Sobre Falar Merda" - Harry Frankfurt, 2004
Li este livrinho curto há mais de 20 anos, quando foi lançado no exterior. Acredito ser particularmente explicativo do que representam o governo Trump e seus imitadores. Foster já resume a ideia logo acima, mas vale a pena ler o original. A edição brasileira está fora de catálogo. O livro se baseia numa palestra do filósofo, que também foi publicada em "The Importance of What We Care About", com outros textos seus.
"Das margens ao centro - a normalização sem vergonha" - Ruth Wodak, 2024
Este artigo me foi indicado por leitores, e trata de como a extrema-direita usa a falta de vergonha de comportamentos inaceitáveis como instrumento de mobilização política. É relativamente curto, está em português e é acessível gratuitamente.
"As paisagens emocionais da extrema-direita massiva" - Alejandro Grimson, 2025
Outra indicação recebida. Cita o artigo anterior, numa discussão sobre como o governo Milei consegue mobilizar massas na Argentina tentando apagar da história grupos importantes como as mães da Plaza de Mayo.