Um artigo do fundador da Lagom Data, Marcelo Soares, foi o tema de uma questão da prova de Língua Portuguesa da segunda fase da Fuvest (baixe aqui). Estudantes que se candidatam a vagas na Universidade de São Paulo foram convidados a refletir, a partir do trecho destacado na prova, sobre elementos que tornam comunicativo um texto de divulgação científica.
Para ler o artigo completo, visite The Conversation Brasil. O artigo se baseia em ideias expostas numa entrevista dada à revista Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel.
Soares diz ter ficado surpreso e honrado com a escolha de seu texto pela Fuvest, destacando a importância dos elementos que a questão solicita que os estudantes observem no trecho.
"Para a maioria das pessoas, a educação formal termina na escola e é atualizada pelo jornalismo", diz Soares. "Quanto mais próxima dos leitores estiver a linguagem, mais fácil que a informação seja absorvida".
Um antigo macete do jornalismo para modular a linguagem é pensar num leitor concreto, de preferência alguém pessoalmente próximo mas conceitualmente distante do assunto. "Sempre procurei escrever de uma maneira que pudesse ser compreendida por alguém como minha mãe, que tinha menos escolaridade do que curiosidade pelo mundo", diz Soares.
"Quando ela morreu de câncer de mama, escrevi sobre a doença para o jornal onde eu trabalhava, de uma forma que, se ela tivesse lido, teria tido pressa de fazer os exames que poderiam ter aumentado suas chances de sobreviver", afirma. "No dia seguinte à publicação, uma colega contou que sua mãe ficou tão impressionada que perdeu o medo de examinar um nódulo que tinha no peito. Era câncer de mama, foi tratado imediatamente e com sucesso."
"O abraço que ganhei da colega valeu muito mais do que qualquer prêmio que eu tenha na estante."
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Confira abaixo o trecho, a questão e a resolução proposta pelos avaliadores. Você acertaria?
Língua Portuguesa - Questão 02
Como eu, você e todos nós estamos nos transformando em uma nuvem de dados - e isto não é nada bom
Marcelo Soares
Oito em cada dez usuários de internet no Brasil usam as redes sociais com frequência, de acordo com dados de 2024 do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto Br (NIC.Br). Silenciosamente, enquanto você navega, as redes sociais coletam muito mais informação do que aquilo que fornecemos conscientemente.
Cookies são pequenos arquivos que os sites despejam no seu navegador quando você visita uma página. A finalidade é identificá-lo na próxima visita, e com isso eles viram uma espécie de diário de bordo de tudo o que você fez no site. Eles podem ser do próprio site acessado: ao retornar a um site de notícias, os links em que você já clicou aparecem roxos em vez de azuis. Mas no lucrativo negócio dos cookies de terceiros, os cookies despejados no seu computador pelo site que você visita podem vir de redes de anúncios presentes também em outros sites. A relação dessas redes não é diretamente com você, mas com os sites que acessa. É por isso que tantos sites usam pop-ups pedindo sua autorização para cookies: se não usam cookies de terceiros, não é preciso pedir licença.
Essas empresas coletam dados da sua navegação para refinar um perfil comercializável seu. Num nível mais alto, esses dados são vendidos e cruzados com bases externas, tipo dados vazados do Serasa, histórico comercial e até dados de saúde. É assim que surgem os corretores de dados (data brokers). Eles não têm relação com o seu uso da internet e nem com os sites por onde você passa. São empresas que compilam tudo isso para vender perfis completos, muitas vezes contendo nome, CPF, telefone ou nomes de parentes. Esse mercado alimenta desde a publicidade legítima até golpes e fraudes. Pessoas que aplicam golpes no WhatsApp, por exemplo, muitas vezes compraram o perfil da vítima, com foto e tudo, num site que fornece isso.
Quem está nesses bancos de dados nem faz ideia de que está sendo comercializado como produto. Parte das pessoas que faz ideia disso acaba embarcando na ideia falaciosa de que “todos os nossos dados já são públicos”. É uma falácia: nesses casos mais graves, eles foram roubados ou obtidos mediante falsas premissas.
Disponível em https://theconversation.com/. Adaptado.
a) O texto do jornalista e professor Marcelo Soares é um artigo de divulgação científica. Textos de divulgação científica recontextualizam e didatizam conceitos, procedimentos e dados técnicos e científicos para leitores que, em geral, não são especialistas em uma dada área do conhecimento. Discuta duas estratégias utilizadas pelo professor para tornar o texto mais acessível, exemplificando cada uma delas com um excerto pertinente.
b) De acordo com o artigo, por que é possível afirmar que estamos sendo comercializados como produtos na internet?
Resolução
a) O divulgador utiliza no texto diversos recursos de recontextualização e didatização. Dentre eles, podem ser destacados: 1) a analogia, aproximando a realidade mais concreta dos leitores ao discurso científico, como ocorre em “A finalidade é identificá-lo na próxima visita, e com isso eles viram uma espécie de diário de bordo de tudo o que você fez no site”; 2) o diálogo direto com o leitor, em segunda pessoa, simulando uma conversação, diferentemente do tom geralmente impessoal de artigos científicos, como em “Eles podem ser do próprio site acessado: ao retornar a um site de notícias, os links em que você já clicou aparecem roxos em vez de azuis”; 3) uso de um registro de linguagem mais cotidiano, evitando termos muito especializados, como em “Cookies são pequenos arquivos que os sites despejam no seu navegador quando você visita uma página” ou “Parte das pessoas que faz ideia disso acaba embarcando na ideia falaciosa de que ‘todos os nossos dados já são públicos’”; 4) título chamativo para captar a atenção do leitor, por envolvê-lo na questão em discussão – “Como eu, você e todos nós estamos nos transformando em uma nuvem de dados - e isto não é nada bom”; dentre outras possibilidades.
b) Segundo o texto, nós estamos sendo comercializados como produtos na internet, pois, enquanto navegamos, nossos dados estão sendo coletados por cookies¸ especialmente os de terceiros, e, posteriormente, cruzados com outras bases para a construção de perfis de usuários. Tais perfis são, então, vendidos como produtos para publicidade legítima ou para golpistas, que podem obtê-los por falsas premissas.