No domingo das mães, uma imagem quase pornográfica circulou pelas redes sociais: um rapaz musculoso, de boné e camiseta preta, mamava um líquido branco e viscoso de um frasco cilíndrico de detergente Ypê, antes de erguer o dedo médio aos “petistas”.
Dias antes, a Vigilância Sanitária alertou ao público que um lote inteiro de produtos de limpeza corria risco de contaminação por uma superbactéria particularmente perigosa para pessoas com baixa imunidade. A recomendação, cautelosa e obrigatória, foi a de evitar o uso desses produtos e recolher lotes.
Rapidamente, as redes sociais lembraram da generosa doação feita pelos donos da Ypê a Jair Bolsonaro em 2022, e a guerra de memes começou. Em muito pouco tempo, o sabão foi adotado como um amuleto da extrema-direita, assim como na virada do ano uma marca de chinelo virou um perigoso inimigo comunista.
Suponho que o rapaz sedento por sabão seja uma espécie de influenciador político, em pleno exercício ou no grupo de acesso. Não faço ideia de quem seja, porque o mundo dos influenciadores é composto em sua maioria por pessoas que ninguém conhece, exceto os milhares ou milhões que os acompanham. Vivem de caçar clique, e para caçar clique não é preciso muita preocupação com a veracidade. Ou seja, dificilmente era detergente o que o cavalheiro bebia, e nem vem ao caso o que poderia ser. O que importava era que sua ofensa circulasse.
A ideia desse tipo de discurso é fundamentalmente descredibilizar o órgão público, que está apenas fazendo seu trabalho, para poupar a empresa de todo o custo envolvido nesse tipo de sanção. A empresa parece ter tirado do gancho o telefone do seu Serviço de Atendimento ao Consumidor e nunca orientou seus clientes sobre o que devem fazer. Nas redes sociais, disse ter obtido uma liminar favorável a manter a venda dos produtos.
Depois que a pós-verdade foi entronizada no poder político mundial, em 20 de janeiro de 2025, começou a era pós-vergonha, que dissolveu qualquer constrangimento no uso político do absurdo. O que importa é colar com o público certo e tomar tempo precioso dos outros públicos. A estética dominante na pós-vergonha é o que se pode chamar de “neoliteralismo”. O duplo sentido morreu no meio da pandemia de Covid-19 e foi sepultado com o cantor de forró Genival Lacerda. Hoje, qualquer coisa que demande olhar duas vezes virou filigrana de intelectual.
O meme é aceito como fato, para deleite póstumo de Jean Baudrillard, e até os roteiros da Netflix demandam redundância extrema para atingir um público desatento.
A REALIDADE QUEBROU
Um fato que faz com que economistas e analistas políticos cocem a cabeça é a discrepância na avaliação do cenário econômico. Mesmo com os melhores indicadores em muito tempo, grandes fatias da população não percebem melhoria. Excelentes explicações têm aparecido, inclusive observando o endividamento das famílias com as bets. Mas não podemos descartar o caos no ambiente de informação como uma das causas.
As pesquisas do instituto Quaest, além da intenção de voto para presidente e avaliação do governo Lula, também perguntam como as pessoas se informam. O cientista político Fábio Vasconcellos destacou dois achados:
Bolsonaristas têm visto mais notícias negativas para Lula do que lulistas
Quem tem melhor opinião sobre o governo Lula se informa mais “pela TV” do que “pelas redes sociais”, e vice-versa
A princípio, essa divisão de hábitos de informação entre “internet” e “meios tradicionais” faria pouco sentido, visto que a maior parte do acompanhamento de fontes tradicionais (imprensa, estudos acadêmicos, comunicados oficiais) já é feita na internet.
Ela faz mais sentido, porém, se pensarmos em termos de como cada respondente entende a própria noção de que existe uma realidade compartilhada.
Quem valoriza sobretudo fontes institucionais para se informar, provavelmente, indica que acredita numa realidade da qual todos participamos e que pode ser conhecida em grande parte por meio de pesquisa, apuração e leitura. Deve acreditar que todos têm direito às suas próprias opiniões, mas não aos seus próprios fatos. Essa realidade compartilhada, em tese, é o objeto das notícias. Há várias problematizações possíveis dessa divisão, especialmente porque a imprensa tradicional cada vez mais prefere dar espaço a comentadores do que a repórteres. Mas, como simplificação, funciona.
Quem afirma valorizar sobretudo a internet para se informar, provavelmente, desconfia da realidade compartilhada apresentada pelo noticiário e busca canais personalistas de influenciadores digitais com quem simpatize. Instituições que produzem conhecimento têm pouco valor aqui. O que vale é a opinião tribalizada dos influenciadores a quem ouve, mesmo quando negam a pandemia, negam a ciência, negam até sentenças judiciais e, como se viu recentemente, negam as orientações da Vigilância Sanitária e do bom senso sobre beber detergente. No mundo dos influenciadores, o que puder atrair mais cliques daria direito a determinar os próprios fatos a partir da própria opinião.
“A viralidade determina os assuntos de que as pessoas falam, e a viralidade é uma função de quão bem os influenciadores, os algoritmos e as multidões fazem com que algo capture a atenção do público”, escreveu a pesquisadora Renee DiResta em seu livro “Invisible Rulers: the People who Turn Lies into Reality” (“Comandantes invisíveis: as pessoas que transformam mentiras em realidade”), publicado em 2024 e ainda não traduzido no Brasil. Ao longo da obra, ela repete cinco vezes a frase “se você fizer virar ‘trend’, você faz virar verdade” – uma delas na capa, outra no título de um capítulo e as restantes ao longo do texto. É uma regra não escrita do mundo digital regido pela economia da atenção.
A autora alerta que, para analisar esse ambiente, não basta apenas ver o que está sendo dito. A multiplicação das mensagens em redes sociais, dentro das bolhas, depende de uma complexa interação entre influenciadores, algoritmos e multidões.
Desde a última eleição presidencial, a evolução da inteligência artificial gerativa permitiu, de maneira muito barata, a criação de imagens muito verossímeis até de “influenciadores digitais” sem existência humana. É o caso da dona Maria metafórica com perfil em redes sociais, que se tornou uma influenciadora de extrema-direita e amealhou tantos seguidores que seu criador vende cursos dando a receita do sucesso.
Nada disso significa que acreditar numa realidade externa seja necessariamente “de esquerda” e submeter o próprio juízo à opinião tribal seja necessariamente “de direita”. Existem bolsões de terraplanismo de um canto a outro do espectro ideológico. Alguns porém, têm financiamento mais generoso para funcionar com os mecanismos de impulsionamento das redes sociais, e pelo menos neste momento isso tem um endereço político mais definido. Outros alinhamentos podem ocorrer.
A questão é que, para termos uma democracia minimamente funcional, é preciso que a cidadania esteja minimamente de acordo sobre os fatos, ainda que discorde nas opiniões. Essa condição básica não está dada, e muita espuma ainda deve rolar.