Conheci a inflação lendo quadrinhos

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Na foto, quadrinhos da DC de uma série sobre o Super Homem

Versão revisada de texto publicado no Medium com o título "Como era viver na inflação galopante", em 8 de setembro de 2020.

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Eram tempos loucos, os anos 80 e 90. Só quem viveu sabe, mas metade da população brasileira atual não estava lá.

Na adolescência, vi o preço dos meus gibis favoritos saltar de Cr$ 30 para Cr$ 6.400 e passarem a ser cobrados por uma tabela atualizada semanalmente. No mesmo período, cheguei a ganhar um milhão como estagiário, mas esse milhão era provavelmente menos do que um salário mínimo.

Mas, alguns anos antes disso, veio o Plano Cruzado. Eu tinha nove anos quando o então presidente Sarney abriu cadeia nacional de televisão logo depois do almoço para anunciar que o cruzeiro não existia mais e que a partir daquele momento o que valia era o Cruzado. Cairiam três zeros de todos os valores (ou seja, dividiriam por mil) e os preços seriam tabelados.

Era 28 de fevereiro de 1986, e minha ingenuidade infantil nunca havia imaginado que o dinheiro poderia mudar. Metade da população do Brasil nasceu depois disso e talvez nutra a mesma ilusão, então vou contar essa história pra vocês.

Que os preços subiam todo dia não era novidade para ninguém, muito menos para um garoto curioso cujo único luxo de consumo eram revistas em quadrinhos. A novidade era o fim da única moeda que eu conhecia, o cruzeiro. E nem era o cruzeiro original – esse estava em vigor "apenas" desde 1970. Meus pais tinham visto as duas mudanças de moeda anteriores (1967 e 1970). Minha avó, mais uma (1942).

Esta vinha sendo a trajetória dos preços do gibi do Super-Homem até então: 967% de aumento apenas nos menos de dois anos desde que os personagens da DC foram licenciados pela editora Abril, em meados de 1984.

A Abril publicava a Marvel desde 1979, com grande sucesso, e foi assim até 2001. Em 1983, passou a publicar os personagens de maior apelo televisivo como Homem-Aranha e Hulk, que estavam na RGE (atual Editora Globo). No ano seguinte, com a chegada da DC, consolidou todos os grandes títulos de super-heróis e estava em posição privilegiada para publicar uma onda de material novo de altíssima qualidade que vinha surgindo lá fora, de maneira muito mais organizada do que a editora anterior, a Ebal. Àquela altura de 1986, a Abril publicava uma média de MIL páginas de quadrinhos por mês, apenas de heróis.

Já a Ebal, que publicava a DC desde os anos 50, estava praticamente quebrada e havia publicado o último número de "Superman em Formatinho" no final de 1983, encerrando assim sua longa trajetória com a Liga da Justiça. Bajularam o quanto puderam os militares, inclusive publicando álbuns de figurinhas. Não adiantou: as flutuações do dólar nos anos 70 jogaram o dólar às alturas e no começo da década seguinte mataram algumas editoras, incluindo a que fazia figurinhas de milicos.

A inflação era um troço enlouquecedor que se acelerava desde os estertores da ditadura, quando o segundo choque do petróleo rasgou a fantasia do “milagre econômico” e arremessou a economia brasileira numa crise insanável. Na faculdade, li um excelente texto do economista Pedro Malan, trazido por uma professora para que conhecêssemos quem o então ministro era antes de estar no governo. Era uma versão em português deste artigo, publicada em um livro do Alfred Stepan sobre a redemocratização do Brasil.

O dia do anúncio do Cruzado, 28 de fevereiro, ainda não era dia de aula. Mas, naquela época, eu estudava numa escola defronte a um supermercado, e passei a ser incumbido de fazer pequenas compras para a casa — leite, pão, margarina, carne moída etc. Havia uma tabela de preços congelados, publicada na edição dominical dos jornais e atualizada com alguma frequência. As edições que publicavam essa tabela vendiam muito bem. O público recortava para carregar ao ir ao supermercado.

Não tinha como a ideia não ser popular. Preços previsíveis têm um excelente apelo para o consumidor, e o Sarney ganhou muita popularidade. Pessoas chamavam a polícia e a Sunab para fechar supermercados careiros, portando no peito bótons que diziam "Eu sou fiscal do Sarney". Aí os estabelecimentos começaram a racionar mercadorias, limitando a quantidade que cada pessoa podia levar para casa - meu avô botava todos os netos numa Kombi para cada um entrar numa fila.

 

É lógico que depois de uns meses, os preços voltaram a subir. Veja nos preços do gibis do Super-Homem, que faziam parte da minha cesta básica. Em abril de 1987, início da Crise nas Infinitas Terras no gibi do Super-Homem, o preço das revistinhas aumentou 63% em relação ao mês anterior.

Nos supermercados, a maquininha de remarcar já funcionava a todo vapor nessa época. Eu continuava fazendo as compras pela família, mas agora era orientado a comprar antes de entrar em aula para escapar do aumento dos preços do meio da tarde. Eu era craque em achar latas de óleo ainda não remarcadas. As prateleiras eram uma bagunça.

Os preços aumentavam tanto que não se tinha muita referência do que era o quê. Celso Furtado conta detalhes desse período em seus Diários Intermitentes, da posição privilegiada de quem era o maior economista do Brasil mas estava ocupando o cargo de ministro da cultura para não incomodar os milicos mas sempre era chamado pelo presidente para reservadamente dar suas opiniões sobre economia.

Super-Homem 49 tinha custado Cz$ 130. A edição seguinte custou Cz$ 160, mas as gargalhadas do Coringa taparam o 1. A caixa do supermercado me cobrou Cz$ 60, porque quem é que tinha referência do preço das coisas? Imagino que algo semelhante deva ter ocorrido no Brasil inteiro. A partir da edição seguinte (Cz$ 190), o gibi começou a vir com uma caixa branca por trás do preço.

Em janeiro de 1989, bem no meu aniversário de 12 anos, o preço aumentou 43% e o gibi saiu por R$ 500. Nada menos que SETE MIL E QUARENTA E TRÊS POR CENTO de aumento em quase três anos. Nesse mês, a Abril extinguiu os gibis Superamigos (lançado em 1985) e Batman (lançado em 1987), lançando em seu lugar a revista Liga da Justiça: além dos preços estarem desse jeito, 150 páginas viraram apenas 84.

A inflação estava enlouquecida, e o governo fez uma nova tentativa de mudar a moeda. Era o ano da primeira eleição para presidente depois da ditadura; aquela inflação acelerada não ficaria bem nos debates. A receita estava na gaveta do Sarney desde 1986: divide todos os preços por 1000, carimba as notas e temos aí o Cruzado Novo.

Cédulas do Brasil - Séries

Mas adivinha só o que aconteceu: em 14 meses, os preços dos gibis passaram de NCz$ 0,50 para NCz$ 53. DEZ MIL E QUINHENTOS POR CENTO de aumento no preço nominal. Em um ano.

Aí entrou o Collor, aquele zé-graça que você deve ter visto alguma vez no Twitter tentando ganhar seguidores. Não acredite nele. Quando ele chegou, deu uma congeladinha nos preços, confiscou a poupança e este foi o seu governo, em termos de preços do gibi do Super-Homem: VINTE E UM MIL, DUZENTOS E TRINTA E TRÊS por cento de aumento no preço nominal. Fora ter que aturar a ministra da economia dançando bolero no Jornal Nacional.

O último ponto da fila é o mês do impeachment. Mas a maior parte desses aumentos veio ao longo do processo em que Collor estava sendo investigado por corrupção.

Esta foi uma época especial para mim. Foi quando o Ian Gillan, o Deep Purple, o Black Sabbath e o Iron Maiden foram a Porto Alegre pela primeira vez; quando entrei no segundo grau; e foi quando comecei a trabalhar e ganhar meu próprio dinheiro. Pois é, comecei cedo.

Nessa época, eu já havia incorporado às minhas estratégias de enfrentamento da inflação algumas metodologias. A principal delas era esperar até a véspera do recolhimento da edição do gibi para comprá-lo. Assim, comprava com preço velho. No tocante aos shows. aprendi a fazer regra de três. O ingresso do show do Deep Purple, em agosto de 1991, custava Cr$ 6 mil e a passagem de ônibus custava Cr$ 100. Foi fácil prever que o ingresso do show do Iron Maiden, um ano depois, custaria Cr$ 40 mil.

A inflação me fez aprender matemática, portanto. Muito obrigado, mas queria não ter precisado.

E também foi nessa época que ganhei meu primeiro (e único) milhão. Mas não se impressione, não: isso era mais ou menos um salário mínimo, no final de 1992, quando um gibi custava uns Cr$ 10 mil. Lembro disso porque muitos anos depois encontrei o boletim de ocorrência de quando fui vítima de um golpe.

Os salários eram corrigidos com frequência, mas a inflação era sempre mais rápida. Para que o dinheiro não perdesse o valor no banco, as contas tinham alguma correção diária. Dinheiro parado um mês na conta era prejuízo, mas o salário nunca durava tudo isso. Com a correção, sobrava um pouco menos de mês depois do fim do salário.

Certa vez, no dia de cair o salário, cheguei ao banco e meu dinheiro não estava lá. Registrei um boletim de ocorrência. Durante quatro dias, olhei e reolhei meu extrato. Nada. No quinto dia, caiu. Cada centavo do salário. O problema: não veio um centavo sequer dos juros. Tempos depois, descobriram uma quadrilha dentro do banco. Eles escolhiam alguns incautos ao acaso, no dia do pagamento, e desviavam seus salários para uma conta fantasma. Por alguns dias, rendia juros. Depois, devolviam o salário e ficavam com os juros.

Ah, sim, os preços dos gibis.

Em outubro de 1992, logo em seguida ao impeachment e no comecinho do governo Itamar, a Abril parou de dar preços nominais na capa dos gibis. Passou a usar um sistema de códigos atualizado semanalmente. Foi assim que eles avisaram ao leitor:

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Super-Homem custou "A23" nas revistas de 84 páginas do número 100 até o 121, de julho de 1994, quando veio o Plano Real. Era esse o preço no número 108, quando Clark Kent revelou sua identidade à sua eterna namorada, Lois Lane.

Quando o Superman voltou do mundo dos mortos, no número 126, o preço já estava em reais. E assim permaneceu, por vários meses, custando R$ 1,45.

Um quarto de século depois do Plano Real, como está a situação? Difícil comparar diretamente, porque os quadrinhos mudaram muito.

Aquele gibi do Super-Homem que eu comparo nos gráficos tinha sempre o mesmo tamanho (13 x 21 cm) e número de páginas (84). Era impresso em papel semelhante ao papel jornal, com qualidade variada. Quando era impresso na gráfica Cochrane, no Chile (aconteceu muito em 1989/1992), a impressão era de pior qualidade.

Aquela série durou até setembro de 1996, e a última edição (147) custava R$ 2,20 - um aumento de 50% sobre o preço inicial do Plano Real, em apenas dois anos. A segunda série, que foi até 2000, acabou custando R$ 2,50 - 13% em quatro anos. Ao final, o formato era um pouco maior e a revista tinha 100 páginas. Isso dava R$ 0,025 por página, que corrigidos pelo IGP-M — os múltiplos índices de inflação são uma herança daquele tempo — dariam R$ 0,113 por página hoje.

No final de 2020, o último gibi do Superman que se encontrava na banca custava R$ 12,90. Tem 72 páginas, três histórias, formato maior (17 x 26), capa cartonada e papel encerado. Isso dá R$ 0,179 por página, mas são páginas bastante diferentes. Na média, dá pra dizer que um formatinho com o mesmo número de páginas custaria R$ 8,14.

Se formos ser ainda mais preciosistas, um gibi no formatinho de 2000 custaria R$ 0,0004 por centímetro quadrado de página em papel jornal e cores opacas, enquanto um gibi bastante luxuoso de hoje custa R$ 0,0004 por centímetro quadrado de pagina em papel encerado e cores brilhantes. Ou seja: o gibi hoje é mais barato, ao menos em centímetros quadrados atualizados pela inflação.

É àquele Brasil da inflação galopante que nunca imaginei que poderíamos voltar. Mas tem ido ao supermercado recentemente? Até nas bancas os preços têm me assustado.