Época: morto pelo coronavírus é homem, pobre e negro

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A pedido da revista Época, busquei nos dados do SUS o perfil do brasileiro morto pela Covid-19. As vítimas são majoritariamente homens, pretos ou pardos, com idade média de 68 anos (67 para homens, 70 para mulheres). A partir desse perfil, a equipe da revista conversou com a família de uma vítima com essas exatas características: seu Adelson, que se orgulhava de ser motorista de ambulância em Cubatão (SP).

Seria possível tirar conclusões mais aprofundadas ainda sobre o perfil da vítima se não fosse o mau preenchimento de campos essenciais de tantas fichas. Apenas um terço, por exemplo, informa sobre comorbidades. É compreensível, dadas as condições de produção desses dados – o profissional que preenche a ficha é o mesmo que tenta salvar vidas sem EPI.

Trecho da reportagem:

Ainda que os dados contenham enormes lacunas na inserção de informações socioeconômicas, como escolaridade e profissão, é possível aferir, com o que se tem disponível hoje, a relação entre a mortalidade do vírus e a renda, resultando na constatação atroz de que os mais pobres, seja por precariedade da saúde, da moradia, do trabalho ou do acesso à rede hospitalar, foram as maiores vítimas da Covid-19 no país. Segundo Marcelo Gomes, pesquisador que coordena o projeto InfoGripe, da Fiocruz, a falta de oportunidade é escancarada nos aspectos mais básicos da vida em sociedade, que é o acesso à água tratada, importante fator para a multiplicação do coronavírus. Água limpa e esgoto tratado são serviços escassos na Região Norte, no sertão nordestino e nas periferias das grandes cidades, o que dificulta a prática de medidas profiláticas simples, como a lavagem das mãos. “Temos uma realidade bastante peculiar em termos de vulnerabilidade socioeconômica e sociodemográfica, muito distinta em relação à dos países desenvolvidos”, disse o pesquisador. “Nossas zonas mais pobres têm um adensamento maior, mais gente no mesmo espaço, o que aumenta a velocidade de transmissão.”

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